segunda-feira, 4 de julho de 2016

Todo dia a Vida vence a Morte

Mataram mais um
No morro
No beco
Na rua
Na frente da minha casa
Mataram mais um
Mulher, lésbica, mãe solteira
Pobre, preto, favelado
Comunista!, disseram
Mataram mais uma
Entrou pras estatísticas
Não virou capa de jornal
Deu no Facebook
5 minutos de fama na rede social
Mataram mais uma
Eu.
Virou semente,
brotou,
vento levou,
germinou erva daninha,
espalhou no quintal!
Não mataram ninguém
Persistimos. Resistimos.

Todo dia a Vida vence a Morte.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Solstício de Inverno



“Compreendo muito bem seu principal problema: a dificuldade que o amante tem de provar ao outro que o ama; sua insegurança face ao outro, que ele nunca sabe se compreendeu bem seus sentimentos; uma incerteza que está sempre presente no amor. Preciso que me digam todos os dias que me amam, e todos os dias isso é algo novo, jamais é conquistado de maneira definitiva. De um dia para o outro, o amor pode acabar. É como um milagre, e todos os dias é preciso comprovar que ele continua a existir”.

Pedro Almodóvar

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Pequeno delírio crepuscular

São 4 da manhã.
Acordo, amor.
O vento uiva lá fora,
E minhas pálpebras se abrem
Nuas.
Tuas.

Não padeço de insônia ,
se te olho de madrugada.
Porque hoje te olhei.
E não vi mais nada.

Seus lábios, quentes e ásperos.
Toco com timidez,
três vezes seguidas.
Não me cobro pudor.
Teus lábios chamam.

Ardo.
Enrubesço.
E viro de lado

Acorda, amor.
São 4 da manhã. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

Sobre cozinhas de albergue, papa de aveia e amor


Acho albergues uma graça, quase um exercício antropológico: aquela mistura de "festa estranha com gente esquisita" (que me rende boas conversas), banheiros razoavelmente limpos e uma cozinha a minha espera. Nunca tive problemas com albergues e se você os teve, por favor, não me conte.

Descobri a potência da cozinha de um albergue em 2011, num mochilão pela Patagônia feito com muito amor e pouquíssimo dinheiro. As cozinhas eram nossas salvações. Numa noite de poucos recursos, 2 ovos e 5 laranjas salvaram vidas. A minha, inclusive. Acredito que foi nessa noite que minha relação com comida e com a cozinha começou a mudar: um processo que culminou em vegetarianismo e gosto pela culinária.

Faz frio em São Paulo, faz mais frio ainda no meu albergue cercado por árvores que cantam com o vento. Entre leituras e cansaços, resolvi ir até a cozinha do albergue e preparar minha fiel companheira papa de aveia: este alimento tão nutritivo e barato que associo com amor. (Talvez porque quem me apresentou a aveia, num café da manhã de uma segunda-feira despretensiosa, me desperte este sentimento).

Na cozinha do albergue, um americano tão alto quanto um jogador de basquete, me observa atentamente. Penso que o cheiro da canela o tenha capturado. Ele olha intrigado, mas nada pergunta, talvez supunha que a diferença de línguas impossibilitaria a comunicação. Antes de eu terminar o prato, o americano se levanta da mesa e da lugar a um peruano falante. Sento e ouço atentamente a história do peruano que está no Brasil há um mês: seu sonho é ajudar os imigrantes que estão no Brasil trabalhando como escravos nas fábricas de lojas de grandes marcas.

Entre um questionamento e outro, surge o americano e uma moça na cozinha:

- Inara ele está curioso pra saber o que você está comendo.
- Papa de aveia, eu respondo.

A moça que deveria ser a tradutora não lembra como se diz aveia em inglês. Eu tampouco. Assim começa a mobilização em torno da papa de aveia. Associações engraçadas surgem, o americano não entende e felizmente ninguém lembra do Google - que poderia em um clique explicar. A comoção em torno da papa de aveia é tão grande que me ofereço para cozinhar para todos.

Minutos mais tarde, papas de aveia nos pratos e mesa coberta de histórias partilhadas. O americano não é jogador de basquete e se chama Amanhecer (Dawn, em inglês). A "tradutora" mora no hostel. O peruano é fotógrafo e retrata marginalizados sociais. E eu, bem, eu comprovei que papa de aveia realmente é amor.

Então, façamos, vamos amar!

(Para Elma Rios, que não chegou a ver minha transformação culinária, mas foi a primeira a me dar dicas de alimentação. Lembro com saudades das nossas aulas de francês. Para Lia Eps e Emanuelle Curvo, minhas companheiras de viagem, diversão e fome pela Patagônia. Para Emily Ferreira, que nesta manhã me escreveu apenas por lembrar que eu amo papa de aveia, sincronias)