terça-feira, 7 de junho de 2016

Sobre cozinhas de albergue, papa de aveia e amor


Acho albergues uma graça, quase um exercício antropológico: aquela mistura de "festa estranha com gente esquisita" (que me rende boas conversas), banheiros razoavelmente limpos e uma cozinha a minha espera. Nunca tive problemas com albergues e se você os teve, por favor, não me conte.

Descobri a potência da cozinha de um albergue em 2011, num mochilão pela Patagônia feito com muito amor e pouquíssimo dinheiro. As cozinhas eram nossas salvações. Numa noite de poucos recursos, 2 ovos e 5 laranjas salvaram vidas. A minha, inclusive. Acredito que foi nessa noite que minha relação com comida e com a cozinha começou a mudar: um processo que culminou em vegetarianismo e gosto pela culinária.

Faz frio em São Paulo, faz mais frio ainda no meu albergue cercado por árvores que cantam com o vento. Entre leituras e cansaços, resolvi ir até a cozinha do albergue e preparar minha fiel companheira papa de aveia: este alimento tão nutritivo e barato que associo com amor. (Talvez porque quem me apresentou a aveia, num café da manhã de uma segunda-feira despretensiosa, me desperte este sentimento).

Na cozinha do albergue, um americano tão alto quanto um jogador de basquete, me observa atentamente. Penso que o cheiro da canela o tenha capturado. Ele olha intrigado, mas nada pergunta, talvez supunha que a diferença de línguas impossibilitaria a comunicação. Antes de eu terminar o prato, o americano se levanta da mesa e da lugar a um peruano falante. Sento e ouço atentamente a história do peruano que está no Brasil há um mês: seu sonho é ajudar os imigrantes que estão no Brasil trabalhando como escravos nas fábricas de lojas de grandes marcas.

Entre um questionamento e outro, surge o americano e uma moça na cozinha:

- Inara ele está curioso pra saber o que você está comendo.
- Papa de aveia, eu respondo.

A moça que deveria ser a tradutora não lembra como se diz aveia em inglês. Eu tampouco. Assim começa a mobilização em torno da papa de aveia. Associações engraçadas surgem, o americano não entende e felizmente ninguém lembra do Google - que poderia em um clique explicar. A comoção em torno da papa de aveia é tão grande que me ofereço para cozinhar para todos.

Minutos mais tarde, papas de aveia nos pratos e mesa coberta de histórias partilhadas. O americano não é jogador de basquete e se chama Amanhecer (Dawn, em inglês). A "tradutora" mora no hostel. O peruano é fotógrafo e retrata marginalizados sociais. E eu, bem, eu comprovei que papa de aveia realmente é amor.

Então, façamos, vamos amar!

(Para Elma Rios, que não chegou a ver minha transformação culinária, mas foi a primeira a me dar dicas de alimentação. Lembro com saudades das nossas aulas de francês. Para Lia Eps e Emanuelle Curvo, minhas companheiras de viagem, diversão e fome pela Patagônia. Para Emily Ferreira, que nesta manhã me escreveu apenas por lembrar que eu amo papa de aveia, sincronias)

Um comentário:

  1. Papa de aveia define minha infância, é amor purinho com cheiro de canela!!!

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